PRINCIPAIS REINOS AFRICANOS
O vocábulo “civilização”
refere-se, entre outros, ao conjunto de traços identificadores da vida
espiritual e material de determinado grupo social, como instituições e
símbolos.
Sabe-se hoje que a África foi o
berço de maravilhosas e estimulantes civilizações.
Segundo Cheik Anta Diop,
antropólogo e físico senegalês, no início da pré-história, um importante
movimento de sul para o norte levou grandes contingentes populacionais da
região do Grande Lagos (nos atuais territórios e vizinhanças de Uganda, Quênia,
Tanzânia e Ruanda) para a bacia do rio Nilo, onde viveram durante milênios.
Descendentes desses migrantes foram os construtores das antigas civilizações
florescidas no atual Sudão e daquela que, mais tarde, notabilizou-se como o
“Egito faraônico”. E isto num
momento em que, no dizer de Diop, o desenvolvimento da Europa permanecia
estagnado, desde a última Era Glacial.
Processo
de formação das primeiras civilizações africanas (reinos).
O continente africano se liga
tanto ao Oriente Médio pelo istmo de Suez (faixa de terra apertada entre dois
mares, ligando dois territórios) e pelo estreito de Bab-el-Mandec, quanto a
Europa através do estreito de Gibraltar, além disso, o regime de águas e a
vastíssima extensão do rio Nilo, bem como seus afluentes, proporcionaram o
surgimento das primeiras civilizações no continente, ou seja, ao do Antigo
Egito, da Etiópia e da Núbia. Durante os
primeiros tempos, os antigos núbios, etíopes e egípcios teriam conhecido e
compartilhado o mesmo tipo de cultura, tendo inclusive, segundo alguns autores,
até a mesmo aparência.
O Antigo Egito, a Etiópia e a
Núbi (ou Cuxe) formaram uma espécie de tripé, em termos de unidade geográfica,
étnica e cultural.
Pouco a pouco o desenvolvimento
da Núbia e da Etiópia retardava-se, enquanto o Egito, sob as diferentes
influências recebidas do Saara e do interior africano, começa a experimentar
importante surto de civilização, expandindo sua influência na direção sul do
continente seguindo o curso do rio Nilo
Reino
núbio ou cuxita.
Ao longo do Nilo verificou-se,
entre núbios e egípcios, trocas culturais de tal ordem que, por volta de 760 a.C., o soberano cuxita,
Kachta, reinante em Napata (alto Egito sul), conquista Tebas (baixo Egito
norte), assume o título de faraó e dá inicio à “25ª Dinastia”. A ele sucedem
vários outros governantes, entre os quais Taharka ou Tiraca, o único rei
africano citado nominalmente na Bíblia. Com a morte de Taharka é duplamente
coroado (em Napata, sede do poder núbio, e em Tebas, a capital egípcia)
Tanutamon, o qual, entretanto, é derrotado pelos assírios de Assardon três anos
depois de sua subida ao trono, ele retorna a Napata e, a partir daí, começa a
desenvolver-se autonomamente, consolidando sua libertação da influência
egípcia. Registre-se que o reinado dessa linhagem de reis núbios parece ter
sido sempre lembrado entre os antigos egípcios como um tempo de paz e
prosperidade.
Com sua capital transferida, no
século 6° a.C., para Méroe, ainda mais ao sul, os cuxitas passaram a viver uma
nova experiência. E, aí, uma nova civilização, ainda mais brilhante, coerente
com sua civilização, desabrochou. As pastagens às margens do Nilo deram lugar a
sólidas construções de alvenaria, com palácios e pirâmides com estilo e
dignidade próprios.
Enquanto a capital foi Napata, a
principal atividade econômica dos cuxitas era a pecuária: eles criavam
cabritos, cabras cavalos e burros, com a mudança da capital para Méroe, onde as
chuvas eram mais regulares, houve aumento da área de terra irrigada e expansão da
agricultura.
A classe dirigente era formada
pelo rei e sua família, pelos nobres, que ocupavam altos cargos do
funcionalismo e pelos sacerdotes. Os agricultores e os criadores de gado, que
eram pessoas livres, formavam a maioria da população. As camadas intermediárias
eram constituídas por artesãos, comerciantes, militares e pequenos
funcionários. Havia ainda os prisioneiros de guerra, que trabalhavam como
escravos por algum tempo.
Não se sabe ao certo as razões do
declínio de Cuxe, oque se pode dizer é que, devido a perca de suas rotas
comerciais, Cuxe foi empobrecendo; as pirâmides de seus reis foram se tornando
menores e mais rusticas, e os números de objetos egípcios encontrados solo
cuxita diminui bastante. Até que em 330 o reino de Cuxe foi conquistado por
outro reino africano, o de Axum.
Reino
etíope.
A partir, aproximadamente, de 1000 a.C., povos semitas do
reino de Sabá, no sul Arábia, haviam começado a migrar através do estreito de
Bab-el-Mandeb, mesclando, nessa longa caminhada, a populações do litoral da
Eritreia e planaltos adjacentes. Como consequência dessas migrações, uma
civilização avançada floresceu nos planaltos da Eritreia e na região de Tigre,
anunciando o que seria, mais tarde, o poderoso reino de Axum.
O fortalecimento dessa
civilização etíope, prestes a ganhar autonomia, preocupava o Egito e a Núbia.
Assim, por volta do ano 600 a.C.,
a cidade de Axum é atacada por forças cuxitas, logo rechaçadas.
No ponto mais alto de seu
desenvolvimento, o reino etíope de Axum dominou parte do sul da Arábia. Por
essa época, as tentativas romanas de conquistar essa região foram frustradas,
enquanto que os etíopes seguidamente intervinham nos destinos do povo local,
ocupando o reino de Sabá, e mesmo tentando chegar à Meca, para arrebatar aos
persas o domínio da cidade, o que não conseguiram.
A partir do fim do primeiro
século da Era Cristã, Axum torna-se a capital do reino da Etiópia, em
substituição à antiga cidade de Yewa, provavelmente localizada no território da
atual província de Tigre. No terceiro século da Era Cristã, altamente
desenvolvida, a antiga cidade de Axum é sede de um dos quatro grandes reinos do
mundo, ao lado de Roma, Pérsia e China.
Reino
de Axum.
Axum foi um reino africano que se
tornou conhecido pelos povos da região, incluindo o Mediterrâneo, por volta do
século I.
Tinham a sua capital na cidade de
Aksum, na atual Etiópia.
Os monarcas
axumitas acreditavam ser descendente do rei Salomão e da rainha de Sabá, assim
como os reis da Etiópia.
A cidade de Axum
foi aparentemente fundada por volta de 100
d.C., mas a região circundante é habitada há milênios. A terra
de Punt, mencionada pelos antigos egípcios como fonte de mirra, localizava-se possivelmente na zona de
Axum. Por volta de 500 a.C surgiu na área uma
cultura pré-Axumita, chamada Da'amat, com ligações culturais com o sul da
vizinha península
Arábica. De fato,
desde o segundo milênio a.C. até o século IV d.C., a região de Axum foi
colonizada por imigrantes sabeus
vindos da península Arábica. A influência da cultura dos sabeus é vista na
arquitetura e na língua do império, o ge'ez.
A partir deste contexto, Axum foi
sede de um dos estados mais poderosos da região entre o Império
Romano do Oriente e
a Pérsia, cujo poder estendeu-se do século I ao XIII d.C. O auge da cidade e do Império de Axum
ocorreu no século IV d.C., quando o território controlado abrangia a atual
Etiópia, o sul do Egito e
parte da Arábia, no sul do atual Iêmem. O
comércio marítimo, com rotas que chegavam até o Ceilão,
era realizado através do porto de Adulis (na
atual Eritréia). Segundo
o autor grego anônimo do "Périplo pelo mar da Eritréia",
datado do século I d.C., Adulis exportava escravos, marfim e cornos de rinoceronte. Relações
comerciais foram mantidas com a então província romana do Egito desde
o século I e com a Índia a partir
do século III; o comércio continuou com o Egito, Síria e o Império
Bizantino até
o século VII. A
área da cidade chegou a cobrir 250 acres e estima-se que a população alcançou
20.000 pessoas no seu auge. O desaparecimento do império de Meroé,
por volta de 320
d.C., pode estar relacionado ao crescimento de Axum, que com isso pôde
redirecionar o comércio de marfim do rio Nilo ao porto de Adulis. Sinal
da importância econômica da cidade foi à cunhagem de
moedas, que começou no século III e continuou até o século VII.
Decadência
A partir do século VII se inicia a decadência de Axum,
primeiro devido à instabilidade comercial causada pelas disputas entre bizantinos e os persas do Império
Sassânida e, após 632, pela
expansão dos domínios dos árabes muçulmanos. Apesar de que as relações com os
muçulmanos foram inicialmente amistosas, a partir do século VII a ascensão da dinastia
omíada causou seu declínio final.
Os árabes dominaram o comércio do mar
Vermelho, conquistando Adulis e cortando as rotas comerciais do Império de
Axum. A produção agrícola caiu,
provavelmente por problemas ambientais e de excessiva exploração da área
circundante da cidade, que nos finais do século VIII foi reduzida a um
vilarejo. As elites abandonaram a cidade, assim como os reis, que transferiram
a capital ao sul. Apesar de haver mantido sua importância simbólica,
especialmente religiosa, os líderes da igreja etíope deixaram a cidade na
metade do século X.
Após um longo período de obscuridade, Axum começa a reviver
a partir do século XV. A Igreja
de Santa Maria de Sião foi
reconstruída em 1404, e novos bairros de moradia foram criados no século XVI. Porém, em 1535, a cidade foi invadida
e destruída pelo chefe militar somali Ahmad ibn Ibrihim al-Ghazi. Nos
séculos seguintes, Axum foi vítima de pragas de gafanhotos, cólera e fome que dizimaram a população.
Reino de Gana
O Reino de Gana surgiu por volta do século IV como Estado
centralizado. Costuma-se dizer que a origem do Reino Gana remonta aos
soninquês. O soninquê é um povo que habitou o Saara Ocidental antes dessas
áreas se desertificarem - antes de Cristo, eles teriam se fortalecido e se
fechado para se defender de ataques.
Por não possuir vontade de se
expandir territorialmente, não ter tentado unificar todos os povos dentro de
seus domínios, de acordo com a visão romana não podemos considerar Gana um
Império. Segundo Alberto Costa e Silva, era um reino por ter um soberano, um
sistema monárquico, mas também um Estado, por possuir governo próprio. Havia
uma esfera de influências, vários povos próximos à Gana não respondiam
diretamente ao rei, mas lhe pagavam tributo. A soberania não era exercida sobre
a terra, mas sobre os homens. O monarca não estava interessado em ampliar seu
poder pela adição de novos territórios, mas em submeter números crescentes de
grupos humanos que lhe pagassem tributo e pudessem fornecer soldados.
Quanto à sucessão ao trono, ela
era matrilinear: era o filho da irmã do rei que lhe sucedia. Segundo Ki-Zerbo,
o escritor árabe Al Bakri diz que era para assegurar que o sucessor fosse
sempre de sangue real, já que seu filho poderia não ser realmente seu filho.
Mas Ki-Zerbo também cita Cheik Anta Diop, para dizer que o sistema matrilinear
foi prática comum aos povos africanos ligada ao seu caráter agrícola e
sedentário.
Estima-se que na segunda metade
do século IX os azenegues tenham conquistado Audagoste, fato de extrema
importância para compreender os motivos que levaram Gana ao seu apogeu. Os
azenegues figuravam entre os berberes. Dividiam-se em grandes grupos e controlavam
rotas comerciais. Enquanto isso, Audagoste era uma pequena cidade, segundo o
Costa e Silva, fundada por volta do século sete. Apesar de recente, era um
centro agrícola, artesanal e mercantil. Os azenegues conquistaram Audagoste na
segunda metade do século nove. O grande chefe azenegue vivia no deserto e ia de
vez em quando a Audagoste. Esta e Gana se completavam. Audagoste controlava o
comércio de sal e a saída para o deserto e Gana o ouro e as trilhas para a
savana e o cerrado. De acordo com Costa e Silva, no início do século XI os
soniquês subiram até Audagoste e lá puseram seu rei. Assim, o poderio de Gana
atingiu seu apogeu, com seu soberano dispondo de grandes forças militares.
Reino
de Mali
O Império Mali, erguido por
Sundiata, unificando grande parte da África Ocindental e atingindo o seu mais
alto grau de evolução na primeira metade do século 14, foi um estado da
África Ocidental, perto do rio Níger, que dominou esta região nos séculos XIII
e XIV. De três impérios consecutivos, este foi o mais extenso territorialmente,
comparado com o de Songhai e do Gana.
O Mansa Musa, mansa de 1312 a 1332, foi outro
célebre rei malinqué que organizou uma grandiosa peregrinação com cerca de 60
mil servidores e cem camelos carregados de ouro, impressionando os líderes
árabes da época. Este mansa foi responsável pela construção em Tombuctu da mesquita de Djinger-ber,
pela expansão e afirmação do Islã no império e por estabilizar as relações
diplomáticas do Mali com os reinos vizinhos. Seu reinado é considerado a Era
Dourada da História
do Mali.
O império
controlava as rotas comerciais transaarianas da costa sul ao norte. Os
principais produtos comercializados eram: ouro, sal, peixe, cobre, escravos,
couro de animais, noz de cola e cavalos.
O Império Mali sucumbiu
finalmente ante o assalto combinado das tribos tuaregues do Norte e dos
Mossinos, do Sul, durante os anos de 1400.
O Império de Songai
Nos primeiros séculos de nossa
Era, pescadores nômades sorko se
estabelecem na grande curva do rio Níger, onde convivem e depois assimilam seus
vizinhos, os agricultores soromba. As comunidades se expandem
ao longo das margens do rio, durante os séculos V e VI, integrando também os
caçadores gow.
Segundo a tradição, Faran Maghan
Bote é quem primeiro consegue reunir os clãs antes dispersos. Ele institui a
dinastia dya e funda o pequeno reino de Kukia,
considerado o berço do futuro império songhai.
No início do século 10º, o rei
dya Kossoi abraça a fé islâmica e conquista a cidade de Gao (no atual Mali),
transformando-a na capital de um reino "cujos moradores professam a
religião muçulmana, enquanto os povos que a rodeiam vivem na idolatria",
na visão do historiador árabe Ibn Hawqal.
Em 1325, o reino de Kukia cai sob
o domínio do império Mali, ficando obrigado a pagar tributos. Apesar disso, Gao
continua sendo "uma das mais belas cidades dos negros e uma das mais
fartas, pois não faltam arroz, leite, aves e peixes", escreve Ibn Battuta
em seu livro Viagem ao Sudão.
Ali
Kolen é como se chama o verdadeiro fundador do império songhai. Lá pela metade do século 15, ele
consegue libertar seu povo do jugo do império Mali e toma para si o título de sonni (= senhor). No poder durante
quase trinta anos (1464-1492), o império que constrói não fica devendo nada a
outros impérios da época, dos maias, astecas ou europeus.
Com a morte de Ali, um de seus
melhores generais, chamado Mohammed, usurpa o trono do herdeiro e inaugura a
dinastia askya. É quando o império songhai alcança o seu apogeu.
Mohammed continua as campanhas
vitoriosas de seu antecessor. Sua obra principal, porém, consiste em criar uma
estrutura sólida e uma administração centralizada para os seus domínios. O
império é dividido em províncias, à frente das quais coloca gente de sua
inteira confiança.
Mohammed incentiva como ninguém
iniciativas no campo das artes e das letras. Junto com Gao, a capital
político-administrativa, Tombuctu se torna a capital do saber, uma verdadeira
"Atenas do deserto".
Eram numerosos os juízes, médicos
e sacerdotes da cidade, e o rei os pagava muito bem. Grande era a procura por
manuscritos importados, e o comércio de livros constituía um dos mais
lucrativos. A universidade de Tombuctu contava com 150 escolas com os três
níveis de ensino: primário, secundário e superior.
A cultura, porém, não é o único
ponto forte dos Songhai. Eles se destacam também no campo da
economia: exploram minas de sal, canalizam o rio Níger, perfuram poços,
melhoram a produção agrícola, unificam pesos e medidas, criam um ministério
para a pesca e as florestas. Tudo isso contribui para melhorar ainda mais o
padrão de vida da população.
Mas nem tudo é luz no império songhai. Aos poucos vão surgindo também
problemas e injustiças. Toda essa estrutura administrativa e cultural, para ser
mantida, precisava de muito dinheiro.
Assim, os impostos do império
"eram tão altos que só sobrava para os habitantes o necessário para
sobreviver", relatam as crônicas. O pesado fardo caía, sobretudo sobre as
costas de agricultores e criadores de animais, considerados pessoas "de
uma ignorância absoluta".
As riquezas do império songhai, sobretudo ouro e sal, acabaram
despertando a ambição dos marroquinos, que já em 1584 enviaram uma primeira
expedição. Fome e sede, porém, barraram os soldados invasores no deserto.
Seis anos depois, uma nova
tentativa. O sultão marroquino envia uma expedição de 4 mil homens armados, sob
o comando do mercenário espanhol El D'Jouder.
Dessa vez, as armas de fogo se
impõem, e os Songhai são derrotados na batalha de
Tondibi, em março de 1591. El D'Jouder se instala em Tombuctu, e dali envia
riquezas ao Marrocos: camelos carregados de ouro bruto, pimenta, chifres e uma
espécie de madeira usada para tingir tecidos, além de cavalos, eunucos, anões e
escravos de ambos os sexos.
A invasão transforma o panorama.
A fome toma conta de Tombuctu. A escassez de comida é tão grande que muitas
pessoas sobrevivem comendo cadáveres de animais e de seres humanos. Como se não
bastasse, surge uma peste que dizima parte da população. A situação pior dura
dois anos e obriga o povo a se desfazer de tudo o que possuía, para se manter.
Junto com a ruína econômica chega
a decadência moral. "A partir desse momento, tudo muda", escreve um
historiador. "A segurança cede lugar ao perigo, a opulência à miséria.
Distúrbios, calamidades e violência tomam o lugar da tranqüilidade. Em todo
lugar e em todas as direções se vêem roubos e guerra. A desordem é geral."
Depois de arruinar tão rica
cultura, os marroquinos se retiram. Em 1670, o povo dos Bambara conquista Tombuctu, enquanto osTuareg ocupam Gao, a capital. Desaparece
assim o maior império da Idade Média africana.
Processo
de escravidão na África.
A escravidão entre os povos
africanos
A escravidão existiu na Ásia, na
Europa, nas Américas e na África. Muitos dos povos africanos utilizavam
escravos para os mais diversos fins, e como cada povo africano tem sua própria
organização política, econômica e social, a escravidão na África se desenvolveu
de muitas formas.
De uma maneira geral, partindo da
história de grande parte desses povos, podemos dizer que existia na África uma
escravidão doméstica, e não uma escravidão mercantil, ou seja, entre vários
povos africanos, o escravo não era uma mercadoria, mas sim um braço a mais na
colheita, na pecuária, na mineração e na caça; um guerreiro a mais nas
campanhas militares, um pescador a mais e por aí vai.
Esses povos africanos preferiam
as mulheres como escravas, já que eram elas as responsáveis pela agricultura e
poderiam gerar novos membros para a comunidade. E muitas das crianças nascidas
de mães escravas eram consideradas livres pela comunidade. A grande maioria dos
povos africanos era matrilinear, ou seja, se organizavam a partir da ascendência
materna, partindo da mãe a transmissão de nome e privilégios, tendo as
mães grandes prestigio dentro das comunidades. Dessa forma, uma mãe escrava
poderia se tornar líder política em sua sociedade, por ter gerado o herdeiro à
chefia local.
Além disso, um escravo que fosse
fiel ao seu senhor poderia ocupar um cargo de prestigio local, inclusive
possuindo escravos seus. Assim, nem sempre ser escravo era uma condição de
humilhação e desrespeito. Mesmo representando uma submissão, tratava-se de uma
situação que muitas vezes era a mesma que a de outras pessoas livres.
Os
árabes e o tráfico de escravos africanos
Ao lado da escravidão doméstica
também existia o comércio de escravos. Algumas sociedades africanas viviam da
guerra para a captura de pessoas para serem vendidas a outros povos que
necessitavam de escravos. Como na África existiam várias etnias, vários grupos
políticos diferentes (os africanos não eram um único povo), as guerras entre
eles eram muito frequentes, e uma consequência disso era escravização dos
vencidos, que podiam ser vendidos, segundo a necessidade do vencedor.
O comércio de pessoas se
intensificou no século VII, quando os árabes conquistaram o Magreb e o leste
africano. Os árabes eram grandes mercadores de escravos, e conseguiam suas
mercadorias humanas em diversas regiões: Espanha, Rússia, Oriente Médio, Índia
e África. Os escravos comprados nessas regiões eram vendidos principalmente na
península Arábica, mas também podiam ser vendidos em regiões mais distantes,
como na China.
Com o aumento da demanda por
escravos nos portos africanos controlados pelos árabes, aumentou também o
número de povos africanos que passaram a viver (e sobreviver) da captura de
inimigos ou de grupos mais fracos, para vendê-los. Acredita-se que entre os
séculos VII e XIX, em torno de 5 milhões de africanos tenham sido comprados na
África pelos árabes.
Nesse processo, muitas tribos,
cidades, reinos africanos se fortaleceram, pois controlavam as rotas de
comércio de escravos. E quanto mais fortes e ricos se tornavam, mais tinham
condições de oferecer mais mão de obra escrava para os árabes. Foi o caso do
Reino de Mali, Reino de Gana, as cidades iorubas, o Reino do Congo e as cidades
suaílis, e várias outras.
Os
portugueses e o tráfico de escravos africanos
Apesar de o comércio de escravos
já ser praticado na África, foi com a chegada dos portugueses nesse continente
que o tráfico escravista se configurou na maior migração forçada de povos da
história. Os pesquisadores apresentam números diferentes, que vão de 8 milhões
até 100 milhões de pessoas obrigadas a deixar a sua terra natal, atravessar o
oceano Atlântico para ser escravo em regiões distantes.
Quando os portugueses chegaram a
Ceuta, no início do século XV, iniciaram a captura e escravização dos africanos
das redondezas, com a justificativa de que eram prisioneiros de guerra e
muçulmanos, considerados inimigos da fé católica europeia.
A partir de então, em pleno
processo de Expansão Marítima, os portugueses avançaram em direção ao sul, na
costa atlântica da África, em busca de riquezas para serem comercializadas e
foram descobrindo o comércio de escravos. Num primeiro momento, o comércio de
gente não interessou aos navegadores portugueses, já que a Europa não tinha
necessidade de mão de obra escrava.
Quanto mais os portugueses
avançavam na costa africana, mais sentiam a necessidade de se estabelecer em
alguns pontos de comércio, para consolidar sua exclusividade na região. Em 1455
os portugueses construíram sua primeira feitoria na África: o forte de Arguim
(na região da Senegâmbia, atualmente Mauritânia). Para manter essa feitoria, os
portugueses passaram a utilizar escravos africanos e a comercializá-los.
Muitos portugueses tentavam
capturar os africanos, mas em pouco tempo perceberam que era mais lucrativo
entrar nas redes de comércio de escravos já existentes, e por isso começaram a
buscar essa mercadoria junto aos povos do litoral. Um dos primeiros povos
aliados dos portugueses no tráfico de escravos foram os jalofos, na Senegâmbia.
Em troca de escravos, os jalofos conseguiam cavalos dos portugueses (um cavalo
era trocado por 15 ou 20 escravos) e armas de fogo, o que aumentava o seu poder
de guerra e de conquista de mais escravos.
Com o início da colonização das
ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (na segunda metade do século XV), a
necessidade de mão de obra aumentou, e a compra de escravos foi a solução
encontrada pela Coroa portuguesa. Por essa mesma época, os portugueses chegaram
à Costa da Guiné (atualmente desde a Guiné até a Nigéria), onde encontraram
povos ricos que já negociavam com os árabes e puderam comercializar ouro,
especiarias e escravos. Tamanha era a riqueza da região que os portugueses
passaram a chamá-la de Costa do Ouro, Costa da Mina e Costa dos Escravos.
Em 1482, o navegador português
Diogo Cão chegou até ao Reino do Congo e conseguiu fazer alianças com o
manicongo ("senhor do Congo") Nzinga Kuvu. Nessas alianças existiam
interesses mútuos: os portugueses queriam ter maior acesso às redes de comércio
da África, e o manicongo pretendia obter as técnicas de guerra e de navegação
dos portugueses. Inclusive o manicongo se converteu à religião católica,
passando a se chamar dom João.
Por quatro séculos, a maior fonte
de escravos do tráfico atlântico português se deu a partir do Reino do Congo e
do reino vizinho, Andongo, chamado pelos portugueses de Angola. Isso ocorreu
principalmente quando os portugueses conseguiram o direito de negociar mão de
obra para exploração espanhola da América (o direito de Asiento) e passaram a
precisar de mão de obra para desenvolver sua própria colônia americana: o
Brasil.
O
Imperialismo na África
O Imperialismo
na África determinou
a repartição do continente entre as potências européias do final do século XIX
e início do século XX. Durante vários séculos o continente foi explorado por
colonizadores estrangeiros e até hoje sofre as conseqüências das intervenções
de outrora.
O
primeiro momento de conquista do território africano na modernidade aconteceu
com o avanço das grandes
navegações. Inicialmente, Portugal e Espanha foram os primeiros colonizadores
europeus da África entre os séculos XV e XVII. Esta primeira fase é conhecida
como Colonialismo.
Até o
século XIX a intervenção européia esteve presente apenas no litoral do
continente africano, com uma exploração especialmente marcada pelo trafico
negreiro que acontecia no Oceano Atlântico. Mas com a ascensão
de outras potências européias acirrou a corrida pelo domínio do continente e
ampliou a exploração, adentrando no território.
A
entrada de novos países europeus no cenário de dominação do continente africano
causou uma imensa fragmentação das comunidades e das culturas nativas, a exploração
passou a ser guiada pelos interesses ligados às riquezas naturais – como ouro,
cobre e diamantes – e pelas estratégicas regiões
localizadas próximas ao Mar
Mediterrâneo visando os privilégios no comércio
marítimo.
O
primeiro país europeu, após Portugal e Espanha, a invadir o continente africano
foi a França,
que desenvolveu sua conquista imperialista entre 1830 e 1857 na Argélia. Era apenas o começo de uma
nova fase de exploração intensa da África. Os franceses prosseguiram a
conquista estabelecendo-se na Tunísia,
na África Ocidental e na África Equatorial, sendo que o domínio se expandiu
ainda até regiões como Madagascar e Marrocos.
Em
seguida aos franceses vieram os ingleses,
os quais promoveram a conquista imperialista no Egito e o domínio do Canal de
Suez. Os alemães vieram em seguida conquistando a
África Oriental e Camarões, Togo e Namíbia, estes na parte ocidental do
continente. Já atrasados, chegaram os italianos promovendo o domínio na Líbia, na Eritréia e na Somália.
Os
povos europeus tinham grande supremacia no processo de conquista imperialista
no continente africano. A capacidade de tais países, pelo crescimento
conquistado ao longo dos séculos com base na exploração, era inegável e
oferecia condições de enfrentamento com grande poderio. As comunidades
africanas, contudo, não deixaram de enfrentar os europeus, é bem verdade que a
derrota era quase inevitável, mas o processo de dominação imperialista na
África não foi tão fácil quanto se pode parecer.
Já
entre os países europeus, as disputas por territórios imperialistas no
continente africano, onde se pudessem explorar as riquezas e estabelecer a
influência ideológica, também foram motivo de atritos. As tensões entre as
novas potências européias foram crescendo gradativamente, em simultaneidade com
a intensificação do processo de dominação. O ambiente se tornou tão instável
que a corrida pela conquista do continente africano e também do asiático foi um
dos motivos para a eclosão da Primeira
Grande Guerra Mundial em 1914.
A escravidão no Brasil colônia.
Desenvolvendo-se no apogeu do mercantilismo,
a economia do Brasil colonial se
assentou sobre três pilares: as grandes propriedades rurais,
ou seja, os grandes latifúndios, na qual se desenvolvia um empreendimento
comercial destinado a fornecer a metrópole gêneros alimentício, a mineração de
metais preciosos e a utilização da mão-de-obra escrava.
Os portugueses já contavam com
uma alternativa em matéria de trabalho escravo. Desde a colonização da costa
africana, no século 15, os portugueses já haviam redescoberto o trabalho
escravo que desaparecera da Europa na Idade Média, mas que continuava a existir
nas sociedades existentes na África. Desse modo, os portugueses já haviam
montado uma rede de comércio negreiro, utilizando-se de escravos negros nas
plantações de cana-de-açúcar em suas ilhas do Atlântico (Açores, Madeira).
Nem
da parte da Coroa, nem da Igreja houve qualquer objeção quanto à escravização
do negro. Justificava-se a escravidão africana utilizando-se vários argumentos.
Em primeiro lugar, dizia-se que essa era uma instituição já existente na
África, de modo que os cativos "apenas" seriam transferidos para o
mundo cristão, "onde seriam civilizados e teriam o conhecimento da
verdadeira religião". Além disso, o negro era efetivamente considerado um
ser racialmente inferior, embora teorias supostamente científicas para
sustentar essa tese só viessem a ser levantadas no século 19.
A partir de 1570, a importação de
africanos para o Brasil passou a ser incentivada. O fluxo de escravos, entretanto,
tinha uma intensidade variável. Estima-se que entraram pelos portos brasileiros
entre 8 e 13 milhões de escravos de acordo com Pedro Calmon e Pandiá Calógeras.
Caio Prado Jr. Cita sete milhões.
Resistência e quilombos
Não se deve pensar que os negros aceitaram docilmente a sua condição de escravos e que nada fizeram para resistir ao trabalho compulsório. Naturalmente, houve fugas individuais e em massa e a desobediência ou resistência se evidencia no uso das punições e castigos corporais cruéis, que vinha a se somar aos maus tratos naturalmente dispensados a seres que eram considerados pouco superiores aos animais.
Os quilombos eram
entendidos pelo governo português em 1740 como todo o agrupamento de negros
fugidos, que passe de cinco, ainda que não tenham ranchos levantados em parte
despovoados nem se achem pilões neles. Os escravos fugiam das fazendas, entre
os séculos XVI e XIX, e se abrigavam nos quilombos para se defenderem dos
efeitos da colonização e viverem a parte do cosmo visão africana e mantendo os
laços de família perdidos no tráfico desumano de africanos. No Brasil abrigavam
também minorias indígenas e brancas,
ou seja, todo aquele que fosse subjugado pela sociedade da época.
Depois de comprado no mercado, o escravo podia ter três
destinos principais: ser escravo doméstico, isto, é fazer os serviços na casa
do senhor; escravo do eito, que trabalhava nas plantações ou nas minas;
e escravo de ganho, que prestava serviços de transporte, vendia alimentos
nas ruas, fazia trabalhos especializados como os de pedreiro, marceneiro,
alfaiate, etc., entregando a seu senhor o dinheiro que ganhava.
África na atualidade
Fome
Para o
profundo entendimento de tudo aquilo que causou a fome na África é importante à
volta no tempo à época em que foi colonizada, quando os europeus introduziram o
sistema de plantation para realizar a produção de gêneros
que se destinam à exportação, tornando reduzida a área de cultivos de
subsistência (milho, sorgo, mandioca, etc.). A maioria dos países africanos
exportadores, por valores baixíssimos, matérias-primas para os países ricos e
que fazem a importação, a preços caríssimos, alimentos
para suas populações que passam fome.
Com a agricultura extensiva, o homem derruba
as matas e em seus limites ocorre o avanço do deserto. A produção necessária
para exportar não permite que seja praticado o sistema de descansar a terra,
que se esgota com rapidez e mesmo assim o fato de utilizar fertilizantes é de difícil recuperação. Geralmente,
dessa forma, houve a diminuição da produtividade agrícola em muitos países
africanos. O fato de introduzir a pecuária extensiva, ao invés da pecuária
nômade, que se pratica de maneira tradicional no continente, também é causador
de danos às paisagens africanas, pois ocorre à morte dos rebanhos com as
pastagens que se reduziram, sendo que a fome atinge igualmente à população.
Divisão Política
A atual divisão
política da África somente se
configurou nas décadas de 60 e 70.
Durante séculos, o continente foi
explorado pelas potências européias - Reino
Unido, França, Portugal, Espanha, Bélgica, Itália e Alemanha -, que o dividiram em zonas de
influência adequadas aos seus interesses. A colonização da África impôs divisões políticas que nunca coincidiram com as
divisões tribais e, atualmente, guerras entre tribos agravam ainda mais a fome
e a mortalidade no continente. Ao
conseguirem a independência, os países africanos tiveram de se moldar às fronteiras definidas pelos colonizadores. Estas,
por um lado, separavam de modo artificial grupos humanos pertencentes às mesmas tribos, falantes dos mesmos dialetos e praticantes dos mesmos costumes e submetia-os, por outro lado, à
influência de valores europeus.
Em muitos desses novos países,
após a independência, houve inevitáveis revoltas separatistas e golpes
de Estado que
terminaram por instaurar ditaduras. Seguindo diretrizes capitalistas ou socialistas,
os governos assim
constituídos distinguiam-se sempre pela perseguição política, que chegava a
culminar em torturas e massacres dos
opositores.
Em grande parte dos casos, a independência política não foi
total, pois geralmente os novos países mantiveram laços econômicos com as
ex-metrópoles e, durante a Guerra
Fria, alguns se ligaram às grandes potências (Estados Unidos e extinta União Soviética) em busca de assistência
militar e econômica.
De tudo isso resulta a existência de muitos focos de conflito no continente. Em alguns casos
trata-se de lutas de caráter político: grupos que pretendem conquistar o poder
se confrontam com os que detêm o domínio da região.
Em outros, o motivo principal é o separatismo, originado pela artificialidade
das fronteiras coloniais herdadas.
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| Agola |
Economia
A África é o
continente mais pobre do mundo, onde estão quase dois terços dos portadores do
vírus HIV do planeta, a
continuidade dos conflitos armados, o avanço de epidemias e o agravamento da
miséria impedem o seu desenvolvimento. Algumas nações alcançaram relativa
estabilidade política, como é o caso da África
do Sul, que possui sozinha um quinto do PIB de toda a África.
Apesar da diversidade de minerais encontradas em seu subsolo,
a África revela-se um continente pobre, o que é explicado
pelo fato de a exploração das riquezas minerais estarem a cargo de companhias europeias ou norte-americanas. Estas, ao se instalarem, implantam na região uma infra-estrutura - equipamentos, técnicas e meios
de transporte - visando exclusivamente à extração e exportação das riquezas em estado
bruto para os países
industrializados, de modo que a maior parte dos
lucros provenientes desse setor acaba se encaminhando para fora do continente.
Cultura
A cultura da África
reflete a sua antiga história e é tão diversificada como foi o seu ambiente natural ao longo dos milênios. A África é o território terrestre habitado há mais tempo. Os atuais 800 milhões de
habitantes da África evoluíram em um ambiente cultural cheio de contrastes e
que possui várias dimensões. As pessoas através do continente possuem
diferenças marcantes sob qualquer comparação: falam um vasto número de
diferentes línguas, praticam diferentes religiões, vivem em uma variedade de tipos de habitações e se envolvem em um amplo leque de atividades econômicas.











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